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NOTÍCIAS - MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO ATRIBUIU PRÉMIO NACIONAL DO PROFESSOR 2008

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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO ATRIBUIU PRÉMIO NACIONAL DO PROFESSOR 2008 A JACINTA MOREIRA, DA CAROLINA MICHAËLIS

A "professora do ano" usa canções de Maria Bethânia para ensinar Biologia

Dá aulas na Escola Carolina Michaëlis, a mesma que apareceu nos jornais por causa do telemóvel na sala de aula. Nos últimos tempos, tem ensinado Biologia num contentor, porque a escola está em obras. Quando lhe perguntámos o que significa o Prémio Nacional do Professor, que recebeu ontem das mãos da ministra da Educação numa cerimónia para a qual a comunicação social foi chamada em cima da hora, Jacinta Moreira enfia a cabeça nas mãos, encolhe-se, suspira fundo. "Já respondi a essa pergunta 500 vezes", responde, com evidente exagero. "É o reconhecimento do meu trabalho e, sobretudo, um incentivo para persistir".
Não é de perder tempo com falsas modéstias, esta professora de Biologia e Geologia, de 46 anos de idade e mais de 20 de docência. "Quando a escola me comunicou que tinha apontado o meu nome, achei que tinha possibilidades de ganhar. Não porque seja melhor que os outros, mas porque faço o melhor que posso", responde numa voz suave, modulada pelo silêncio que se impõe na austera sala onde nos encontramos.
O aspecto da professora não condiz com o espaço. Loura, com uma madeixa vermelha a marcar a irreverência, corpo franzino. Não nos deixemos enganar, porém: no seu currículo cabem uma licenciatura em Geologia, um mestrado na mesma área e um doutoramento em Ciências da Educação. E cabe ainda a autoria de sete manuais escolares e de dezenas de artigos científicos. "Fui sempre tentando que a minha formação fosse no sentido de responder àquilo que achava que me faltava para responder aos alunos", resume.
As perguntas dos jornalistas são pretexto para balanços. E ela começa por dizer que ser professor hoje é bem mais difícil do que quando começou. "A escola abriu-se a alunos que, há vinte anos, não chegavam a uma sala de aula: com problemas sociais agudos e enquadramentos familiares muito fragilizados. Desse ponto de vista, tornou-se mais difícil", diz.
No seu caso, e numa altura em que a escola pública parece atravessar uma crise existencial, nunca hesitou em fugir à cartilha habitual. Levou filmes para dentro da sala de aula. "O ano passado, numa turma de Biologia do 11.º ano, em que abordávamos as disfunções do sistema nervoso, pus os alunos a ver um filme que retratava a relação de duas pessoas em que uma começou a ter Alzheimer", exemplifica. Mais recentemente, recorreu a músicas de Maria Bethânia com fundo rap para pôr os alunos a reflectir sobre reprodução e afectos. "É muito mais eficaz do que estar a elencar as funções do aparelho reprodutor".
Agora, a uma turma da área de Desporto, "que acha que as boas notas são para os génios que nasceram iluminados", vai mostrar um documentário sobre a primeira mulher a vencer o campeonato mundial de xadrez. "Ela refaz o seu percurso e conta os exercícios específicos que fazia com o pai para treinar certas zonas do cérebro, ou seja, não nasceu dotadíssima e chegou aonde chegou com muito, muito trabalho". Uma lição que também podia encaixar num manual de bons professores. "Tem que se trabalhar muito, planear tudo ao milímetro e estar preparado para chegar à sala de aula e não usar nada daquilo que se planeou porque se percebe que não vai surtir efeito".
Para isso, claro, é preciso tempo. O tal que desapareceu, segundo muitos por culpa do novo modelo de avaliação. Concorda? "Eu estou incondicionalmente a favor de ser avaliada". E gosta deste modelo? "Há nele alguns problemas ainda por resolver...", concede, preferindo pôr-se no lugar de entrevistadora: "Foi decidido que, afinal, os resultados dos alunos não contam para a avaliação. Se não contam, é porque, afinal, não são muito relevantes. E se não são, por que é que hão-de ser levados em conta mais tarde?". Depois, recuperando a cautela, ressalva: "É uma incongruência que não consigo perceber, mas, se calhar, é uma dificuldade minha".

Fonte: publico.pt